um dia a falsa cigana previu-lhe um amor muito pouco falso, muito próximo e advertiu-a para a sua distracção, garantindo assim um agravamento das dioptrias nesse mesmo ano.
as dioptrias aumentaram efetivivamente e consequentemente era-lhe difícil reconhece-lo da mesma forma que lhe era reconhecer alguém do outro lado do passeio. muitas vezes acenou sem certezas, já outras preferiu ignorar, convencendo-se automaticamente de que se tratava apenas de um estranho.
um dia revolucionou-se uma opção. curar a falta de vista aumentando o coração. à delicada operação não respondeu com prontidão mas cruzando-se com sábios amigos lá se foi convencendo de que aquela era a opção ideal, embora temendo o facto do seu pequeno peito não resistir a tamanha dimensão.
à teimosa paciente foi-lhe administrado uma dose de perspectiva nunca outrora tomada e foi assim que se encaminhou heroicamente para o bloco operatório e se submeteu à experiência laboratorial. o médico, homem extremamente competente foi minucioso na sua arte e aprimorou inclusive a estética, de maneira que ela de lá saiu ela com um coração não só colorido como divertido.
mas um dia no recobro enquanto o talentoso profissional lhe ensinava as potencialidades da sua nova geringonça ela achou que era tempo de ir mostrar ao mundo a sua nova aquisição. e assim se decidiu ela em ir dançar e exibir o seu novo coração. gargalhou até ao rio e foi aí que viu imediatamente o que outrora a sua vista não alcançava e percebeu o que a cigana lhe dissera. estava realmente o amor tão perto à sua espera. e num só pulo, numa só dança percebeu que não era a visão dos seus olhos que antes entravavam a sua percepção mas que a visão referida era da intuição - o amor genuíno aquele que sabes que é tão proporcional a alguém quanto é ao mundo, à vida .