segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Camilo Pessanha: Madalena


        

  ... e lhe regou de lágrimas os pés, e os
                                 enxugou com os cabelos da sua cabeça.
                                  Evangelho de S. Lucas.


Ó Madalena, ó cabelos de rastos,
Lírio poluído, branca flor inútil...
Meu coração, velha moeda fútil,
E sem relevo, os caracteres gastos,


De resignar-se torpemente dúctil...
Desespero, nudez de seios castos,
Quem também fosse, ó cabelos de rastos,
Ensanguentado, enxovalhado, inútil,


Dentro do peito, abominável cómico!
Morrer tranquilo – o fastio da cama...
Ó redenção do mármore anatómico,


Amargura, nudez de seios castos!...
Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Madalena, ó cabelos de rastos!


Clepsidra
Camilo Pessanha