segunda-feira, 24 de junho de 2013

até o sol raiar



hoje dança oceano adentro dessa saudade 
não maior que o coração em que se reconhece 


*para a minha estrelinha



sexta-feira, 21 de junho de 2013

(when the sun kicks out)


já num tempo em que não havia


tu precisas quem te cuide,
eu também

antes cuidámos um do outro
foi há muito tempo, num tempo que já não lembra
foi num tempo em que ainda não me sabias a diferença
num tempo que eu não te conhecia fronteiras
num tempo em que eu era tão grande que cabiam lá todos os sonhos
os meus os teus os nossos e até os dos outros

passou dum tempo que precisei que cuidasses de mim
e tu cuidaste
mas tu também és pequenino 
e eu ainda não sou grande outra vez

eu também tenho saudades de cuidar de ti
mas se não sei bem de mim

ninguém gosta dos fins porque lembram demasiado o inicio,
quando os braços eram tão grandes que jogavam às escondidas
e ganhavam sempre

sei que te preciso mas que já não sei
se te sei precisar as pontas dos dedos onde os meus se perderam
enquanto procuravam os teus

e enquanto espero por ti vejo que também de mim esperam 
e tantas vezes eu não apareci

afinal, não é egoísmo sentir falta quando se tornam mimados
os braços que se enlaçam em tanta voltas que nos deixam baralhados
quando procuramos as suas pontas:
é laço no braço ou braço enlaçado?

e não sei precisar quando foi,
porque sempre disse que não os usava

e tu sabes isto um bocadinho mas foges
porque eu sei o quanto odeias,
despedidas.

Estes versos antigos

Estes versos antigos que eu dizia
Ao compasso que marca o coração
Lembram ainda? Lembraram um dia...
Nas memórias dispersas recolhidas
Sequer da piedosa devoção
De algum livro de coisas esquecidas?
Acaso o que ora canta... vive... existe
Nunca mais lembrará? Eternamente?
E, vindo do não-ser, vai, finalmente,
Dormir no nada... majestoso e triste?

Ângelo de Lima

tête-à-tête para a posteridade


terça-feira, 18 de junho de 2013

sai-me

o estômago socado
alberga punhos armados
ao exército do ego.
- defronte-se uma guerrilha!
pela vitória ou derrota exale
a emoção retida.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

olhos-bicho

havia de (te) dizer
a ti, a ti e a ti também.

haviam as intenções
de (te) dizer várias,

a ti, a ti e a ti.

mas havia de
pelas meninas dos olhos-bicho
todos os dias (me) ver.


terça-feira, 11 de junho de 2013

as coisas do José Luís Peixoto I

quantas vezes apostaste a tua vida?
apostei a minha vida mil vezes.
perdeste tudo?
sim, perdi sempre tudo.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Gift

You tell me that silence
is nearer to peace than poems
but if for my gift
I brought you silence
(for I know silence)
you would say
This is not silence
this is another poem
and you would hand it back to me.

Leonard Cohen

quarta-feira, 5 de junho de 2013

devia chamar-se "o poema mais bonito"

A Mulher Mais Bonita do Mundoestás tão bonita hoje. quando digo que nasceram 
flores novas na terra do jardim, quero dizer 
que estás bonita. 

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro. 

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço. 

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 

estás tão bonita hoje. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"