sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

enchantée


sinais de fumo

fumaram uma 
viram passar os moldavos depois do moscatel
fumaram duas na escada sem incêndio, 
ela derrubou a grade.

viram os gatos saltar,
ela voltou para o quarto mas não se reconheceu na paz.
urgiu cumprir soltar os dedos em linhas horizonais,
pesou-lhe o estômago.

pesou-lhe o pesar de quem se sente incumprida
desvendou mil segredos,
horizontais também.

contou-lhe parte, guardou os restos.
queimou-se-lhe a orelha direita,
- dizem mal de ti rapariga!
encostou-se ao coração:
owooooooooooooooo queimou-a a orelha,
- mais quente, mais quente!

arrefeceu por dentro contra a parede gélida
da cor do ventre,
não ousou comunicar.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

à procura de Alice

à procura de Alice treme-lhe o pé cruzado na perna tensa,
na perna que esticou mil vezes na noite anterior.
agora à procura de Alice, treme-lhe o pé.
arde-lhe um prelúdio de inveja
agora que lhe treme o pé à procura de Alice.

ela sabe que lhe pode abrir muitas portas
mas não se esquece que é este o ano em que casa os 29
e já lhe escasseia o tempo para brincadeiras.
e treme-lhe o pé, da perna, dos 29, à procura de Alice.

procura-a essencialmente na balada da madrugada.
aí disfarça bem quando lhe treme o pé:
solta as amarras dos braços presas às pernas dos pés que tremem à procura de Alice,
liberta-se sem pudores, sem receios da idade, sem temores pelo amanhã.
o amanhã envelhecido na fotografia que só verá daqui a muitos anos
quando se esquecer que se já passaram tantos.
quando lhe tremer o pé à procura de Alice.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

memórias privadas de uma pecadora


tenho 3 comprimidos à prova de bala,
bang bang bang!
provo-te que estou à prova?
tu provas-me e devoras-me e
bang bang bang!
provo-te que estou à prova!
...
chumbo esse sabor que fica
chumbo desse odor que tira
todo o prazer.
...
ocre, estática volto
mas continuo viva
e na minha fantasia
não vais voltar a disparar
...
bang bang bang!
não me consegues ferir,
tenho 3 comprimidos à prova de bala
...
que me fazem mentir.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Lux

A noite da manhã soalheira
Cálida cobiçada universal,

Os sorrisos esticados no rio rosa
inoculados pelo olfacto.

Tu estavas tu apareceste tu foste quem ficou.
Caminhaste mas eu pensava em ti que apareceste
e em ti que ficaste e em ti que nao vieste.

Tu foste-te mas eles estiveram,
E transudados se vieram.






quarta-feira, 2 de outubro de 2013

telha

exacerbada pela telha solta rebelam-se aquosos desesperos

remanesce o mosto -
- condensada ostracização.


fumegando no invólucro

.cinza.



segunda-feira, 24 de junho de 2013

até o sol raiar



hoje dança oceano adentro dessa saudade 
não maior que o coração em que se reconhece 


*para a minha estrelinha



sexta-feira, 21 de junho de 2013

(when the sun kicks out)


já num tempo em que não havia


tu precisas quem te cuide,
eu também

antes cuidámos um do outro
foi há muito tempo, num tempo que já não lembra
foi num tempo em que ainda não me sabias a diferença
num tempo que eu não te conhecia fronteiras
num tempo em que eu era tão grande que cabiam lá todos os sonhos
os meus os teus os nossos e até os dos outros

passou dum tempo que precisei que cuidasses de mim
e tu cuidaste
mas tu também és pequenino 
e eu ainda não sou grande outra vez

eu também tenho saudades de cuidar de ti
mas se não sei bem de mim

ninguém gosta dos fins porque lembram demasiado o inicio,
quando os braços eram tão grandes que jogavam às escondidas
e ganhavam sempre

sei que te preciso mas que já não sei
se te sei precisar as pontas dos dedos onde os meus se perderam
enquanto procuravam os teus

e enquanto espero por ti vejo que também de mim esperam 
e tantas vezes eu não apareci

afinal, não é egoísmo sentir falta quando se tornam mimados
os braços que se enlaçam em tanta voltas que nos deixam baralhados
quando procuramos as suas pontas:
é laço no braço ou braço enlaçado?

e não sei precisar quando foi,
porque sempre disse que não os usava

e tu sabes isto um bocadinho mas foges
porque eu sei o quanto odeias,
despedidas.

Estes versos antigos

Estes versos antigos que eu dizia
Ao compasso que marca o coração
Lembram ainda? Lembraram um dia...
Nas memórias dispersas recolhidas
Sequer da piedosa devoção
De algum livro de coisas esquecidas?
Acaso o que ora canta... vive... existe
Nunca mais lembrará? Eternamente?
E, vindo do não-ser, vai, finalmente,
Dormir no nada... majestoso e triste?

Ângelo de Lima

tête-à-tête para a posteridade


terça-feira, 18 de junho de 2013

sai-me

o estômago socado
alberga punhos armados
ao exército do ego.
- defronte-se uma guerrilha!
pela vitória ou derrota exale
a emoção retida.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

olhos-bicho

havia de (te) dizer
a ti, a ti e a ti também.

haviam as intenções
de (te) dizer várias,

a ti, a ti e a ti.

mas havia de
pelas meninas dos olhos-bicho
todos os dias (me) ver.


terça-feira, 11 de junho de 2013

as coisas do José Luís Peixoto I

quantas vezes apostaste a tua vida?
apostei a minha vida mil vezes.
perdeste tudo?
sim, perdi sempre tudo.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Gift

You tell me that silence
is nearer to peace than poems
but if for my gift
I brought you silence
(for I know silence)
you would say
This is not silence
this is another poem
and you would hand it back to me.

Leonard Cohen

quarta-feira, 5 de junho de 2013

devia chamar-se "o poema mais bonito"

A Mulher Mais Bonita do Mundoestás tão bonita hoje. quando digo que nasceram 
flores novas na terra do jardim, quero dizer 
que estás bonita. 

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro. 

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço. 

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 

estás tão bonita hoje. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

segunda-feira, 13 de maio de 2013



I tend to vanish when I see it r-
-uined.
In the r.a.i.n. ...
I run 
back and forward 
Until at last 
I turn my back 
(on the best) 
the past,
keep it,
point my chest on the unseen
and call it the end/  the beginning.



e depois há outros cenários como naquele filme do master Woody em que a mãe se some num número de magia. algum tempo após o misterioso acontecimento e já todos os intervenientes resignados, aparece subitamente no céu. por lá vai permanecendo dia após dia acabando por se tornar um astro integrante do sistema, bem distinto por possuir (e em grande escala) todos os sentidos do ser humano. por fim, sem razão aparente, a senhora volta à terra dos mortais e como se nada se passasse tudo volta à normalidade. tanto quanta possa existir.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

quem é o homem mais forte do mundo?


há um tipo de sono embriagado pelo conforto
que se equipara a tranquilizante para elefantes
bebés
- candura é todo seu adjectivo.
é um sentir todo o peso que a leveza poderia ter,
se toda ela se juntasse.
o pai a levar-nos escada acima
meia-noite,
o pai é o homem mais forte do mundo
quatro pernas cambaleantes.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

delírio em las merdas 1879 concolagem

se fui neste fementido
não foi porque fiquei a fantasiar
vê tu agora quanto me esforço 
pra não fermentar nos folículos 
que feculam dentro do gesso que anseia fenobarbital

flácidos foliam
e nu'intento que não m' infectem as carnes 
me movo em rectos gestos
e quase nem posso respirar

robotizo -me em escala até ao parapeito do rio
colina fantasma ilumina-me o frio 
e ouçoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

"o texto muito ao longe
era o teu corpo na demanda
não me parecia escrito hoje
mas hoje quis tarefa branda
a de curar a ferida ao sol
no claro-escuro da varanda."

"Lisboa is beauti-ful !" (grudam-se penugens ao meu velcro)

e da barba feita e de full of strangers fujo 
já deslizando pela calçada d'avenida que cruzo 
cruz credo
some-se o fementido esfumaça-se o belo
cruz'avenida cruz credo
some-se o fementido 


esfumaça-se o belo


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

o que fica na sombra


os medos interiores são pântanos onde massas vivas se decompõem, alimentando os anelídeos da criatividade

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013




Ouvi o texto muito ao longe
era o teu corpo na demanda
não me parecia escrito hoje
mas hoje quis tarefa branda
a de curar a ferida ao sol
no claro-escuro da varanda.

E só depois
para já depois, ao certo
mas fiz ao corpo teu por perto
ouvindo o texto muito ao longe
escrevinhando o sol bate hoje
cartas de amor como o sol manda
vermelho caixa aço pintado
destinatário demasiado
na virtual ida ao deserto.
Escrevi ao corpo teu por perto
na quente pelo como o sol manda
real regresso do deserto
a tua pele muito ao de longe
era o meu texto na demanda
não me parecia escrito hoje.

Ouvi o texto muito ao longe
não me parecia escrito hoje.

Sérgio Godinho